
Hoje eu acordei com vontade de rever o meu psicólogo. De tempos em tempos preciso da consulta. Arrumei o cabelo, passei batom, e fui! O coração tocava, descompassado, um samba de Lamartine, ansioso pelo encontro, quero dizer, pela consulta. Dentro do ônibus, o meu olhar perdido nas janelas viajou para um destino desconhecido. Olhei para mim, mas não me vi. Eu só me enxergo diante dele! Por isso, o procurei impacientemente. Eu precisava de mim!
De repente, o avistei! Azul! Hoje ele estava mais azul! Parecia ter concentrado toda a sua cor para mim. Desci do ônibus. Caminhei ao encontro dele, me joguei na areia e deixei a sua língua azul lamber os meus pés. Fiquei ali, parada, olhando para ele. Estátua de açúcar derretendo-se ao sal. Mordi nos lábios o gosto das lágrimas. Então me vi, refletida no espelho de soro.
Ao longe, o voo das garças rompeu o silêncio das ondas. O coração retomou o batuque torto, como os meus passos na areia.
Fim da consulta. Voltei para casa desarrumada e sem batom, mas com a alma alva e leve, como as asas das garças.