
Despojada na areia morna do fim de tarde, Lúcia consulta o Doutor Mar, seu psicólogo. O sol a abandona lentamente. Ela se arrepia com o frio do vento que traz a noite e ouve o "heavy metal" das ondas que explodem, raivosas, suas espumas na praia. O Doutor Mar não está bem, parece acompanhar o ritmo do coração de Lúcia, assim como as folhas dos coqueiros acompanham o batuque do vento gelado.
A noite, já adulta, espalha suas trevas no horizonte.
De repente, um pequeno ponto de luz invade a escuridão na direção do oceano, ao longe. Lúcia se lembra dos tempos de criança, quando contava as estrelas que seu inocente olhar conseguia alcançar. Agora, essa estranha estrela desponta no horizonte, movimentando-se rumo ao norte. Num ímpeto, Lúcia decide acompanhar a estrela. Levanta-se e vai. Ao redor, só há escuridão. A areia, agora fria, dança sob seus pés. O pequeno ponto de luz no longe leste corta o breu no invisível oceano. Qual será o seu destino? Lúcia quer ir com a luz, mesmo sem saber para onde. Saber não importa, o importante é chegar.
As horas vão caminhando com a estrela. Lúcia tenta se alinhar a elas, mas o cansaço limita os seus passos. Neste escuro percurso, a areia acaba por dar lugar às pedras.
A caminhada agora é mais difícil, os pés doem, o caminho se torna íngrime, mas Lúcia não desiste.
Depois de muito subir, sente o coração bater mais forte. Mais do que o cansaço, a legria dita o ritmo de suas pulsações, porque ela está acima da estrela. Mas, neste momento de felicidade extrema, a estrela do oriente some. Atravessa a linha do horizonte e perde-se na escuridão do oceano. E Lúcia percebe-se perdida no alto da colina, no meio da treva. Só resta a ela esperar o sol voltar, para descer.